A democratização da (aparente) competência
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Há algum tempo venho conversando com agentes e interlocutores do mercado sobre esse assunto e, confesso, com dificuldade de chegar a uma conclusão. Talvez porque a própria questão ainda esteja se desenhando diante de nós. Talvez porque seus efeitos sejam maiores do que aquilo que conseguimos enxergar neste momento. Ou simplesmente porque estejamos concentrados demais nas capacidades da inteligência artificial quando a transformação mais relevante parece ocorrer em outro lugar.
Recentemente, a leitura de Escrever é Humano: Como Dar Vida à Sua Escrita em Tempo de Robôs, de Sérgio Rodrigues, me levou de volta a essa inquietação. Embora o livro trate da escrita, a reflexão que permaneceu comigo extrapola a linguagem.
Ela começa com uma observação simples: nunca foi tão fácil produzir algo que pareça excelente: um texto articulado. Uma apresentação sofisticada. Uma análise consistente. Uma identidade visual elegante. Um raciocínio convincente.
Resultados como esses, até muito recentemente, funcionavam como indícios relativamente confiáveis de algo maior. Supunham repertório, estudo, experiência e convivência prolongada com determinado tema. Havia entre forma e origem uma espécie de pacto tácito: quem produzia bem, em geral, havia percorrido o caminho que o bem produzir exige.
Mas esse pacto está sendo renegociado.
Não porque a competência tenha deixado de existir, nem porque o conhecimento tenha perdido valor. Mas porque os sinais que costumávamos associar a essas qualidades tornaram-se, de repente, extraordinariamente acessíveis. E há uma diferença que me parece decisiva entre democratizar a competência e democratizar a sua aparência. A primeira exige tempo, profundidade, fracasso, correção de rota. A segunda pode ser simulada numa tarde.
Quando Walter Benjamin escreveu, em 1935, sobre a reprodutibilidade técnica da obra de arte, sua preocupação central não era técnica, era sobre aura. O que se perdia na cópia perfeita não era a imagem, mas aquilo que a imagem carregava: a presença, o lugar, a história de ter sido feita por aquelas mãos, naquele momento, como ato único e irrepetível. A reprodução preservava a aparência e dissolvia a origem, a essência.
É tentador demais não traçar aqui um paralelo.
O que a inteligência artificial reproduz com crescente perfeição não é o conhecimento, é a sua superfície visível. O texto que parece refletido. A análise que parece profunda. A narrativa que parece vivida. E o problema não está na ferramenta: está no fato de que nós, como interlocutores, como mercados, como avaliadores de outros seres humanos, nunca fomos muito bons em distinguir a aura da sua cópia. Aprendemos a confiar nos sinais exatamente porque, por gerações, eles custavam caro e demoravam o suficiente para serem raros.
Mercados são, em sua essência, sistemas de interpretação de sinais. Currículos são sinais. Diplomas são sinais. A forma como alguém escreve é sinal. A estética de uma marca é sinal. O vocabulário de uma apresentação é sinal. Esses elementos funcionaram historicamente como proxies; evidências indiretas de preparo, experiência ou visão. Não eram infalíveis, mas sim suficientemente dispendiosos – em tempo, esforço e dedicação – para que a fraude em escala fosse improvável.
Agora começamos a viver um momento em que essa relação se desfaz.
Ernest Becker, antropólogo cujo trabalho interdisciplinar sempre chamou minha atenção, argumentava que o ser humano constrói cultura porque precisa de imortalidade simbólica; não basta sobreviver, é preciso deixar marcas, ser reconhecido, ter o próprio nome vinculado a algo que persiste. Nesse sentido, a competência nunca foi apenas um instrumento de produção. Foi também uma forma de existência pública. Uma maneira de dizer: estive aqui, pensei isso, construí aquilo.
O que acontece com esse desejo de reconhecimento quando o reconhecimento começa a responder menos à substância e mais à fluência da sua representação?
Honestamente, não faço ideia. E suspeito que essa incerteza seja mais fértil do que qualquer conclusão que eu pudesse oferecer.
O que posso dizer é que toda grande revolução tecnológica produz, ao lado das suas novas capacidades, um novo tipo de ilegibilidade. Novas formas de perguntar “de onde vem isso e o que está por trás disso”.
Estamos, suspeito, no início de uma dessas eras.
A inteligência artificial não apenas amplia nossa capacidade de produzir, ela nos obriga a reconstruir os critérios pelos quais distinguimos produção de simulação, experiência de representação, profundidade de aparência. E essa reconstrução não será técnica. Será, como sempre foi, cultural.
Mas enquanto isso não acontece – e ainda não aconteceu – vivemos num intervalo estranho, em que os critérios antigos perderam força e os novos ainda não foram inventados.
É nesse intervalo, e não naquilo que a inteligência artificial produz, que reside a transformação mais profunda.
Porque, no fim, a questão central não é o que a tecnologia nos permitirá fazer. É o que faremos com a dificuldade renovada de saber quem, de fato, somos uns para os outros.
Leandro Matias, CEO It Homes
Empresário e consultor, Leandro é administrador de empresas, bacharel em direito, especialista em marketing, técnico em transações imobiliárias e pós-graduando em desenvolvimento urbano estratégico pelo Instituto Cidades Responsivas. Há 18 anos trabalha com comunicação, customer experience e inteligência de mercado para solucionar desafios em percepção de marcas, negócios e produtos imobiliários.




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