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O tamanho certo das coisas: o que a Árvore do Amor nos ensina sobre paisagem, cidade e responsabilidade.

Aug 4
4 min read

Por Thiago Frizon e Fernanda Rabelo, QUINTAU Arquitetura da Paisagem.


Para quem ainda não acompanha, o projeto para a Árvore do Amor é uma intervenção de infraestrutura e reabilitação paisagística em cerca de 5 mil metros quadrados, encomendada

pela Prefeitura de Maxaranguape. O roteiro reúne passarela elevada, mirantes, um núcleo interativo em torno da árvore que dá nome ao projeto, quiosque restaurado, estacionamento permeável e a recuperação de dunas e restingas com espécies nativas como guajiru e mandacaru-da-praia. Tudo pensado tanto para o cotidiano de quem mora ali quanto para quem vem de fora. 


Há um exercício que fazemos, quase sem perceber, toda vez que olhamos para um projeto, medir seu valor pelo tamanho do investimento, pela extensão do terreno, pela grandiosidade da obra. É uma lógica compreensível, quanto maior a obra, maior a intenção que parece anunciar. Mas há também o risco de que essa lógica nos faça enxergar como "menor" tudo aquilo que não grita, que não ocupa manchetes com números de milhões, que se instala com discrição na vida cotidiana de um lugar. Foi justamente ao confrontar essa ideia que a Árvore do Amor nos ensinou uma das lições mais importantes da nossa trajetória como arquitetos da paisagem. 



Maxaranguape não é Natal. Não tem o mesmo orçamento, nem os mesmos quadros técnicos, nem a máquina administrativa de uma capital. Ainda assim (ou talvez justamente por isso), foi ali que conseguimos costurar, em uma escala relativamente pequena e com investimento contido, uma trama de valores que cidades maiores, com infraestrutura e recursos incomparavelmente superiores, muitas vezes não articulam memória afetiva, identidade comunitária, permanência ecológica, acesso democrático ao lazer de qualidade e um horizonte de turismo de base comunitária. Isso só foi possível porque a Prefeitura de Maxaranguape assumiu essa responsabilidade e articulou, ao nosso lado, outros atores comprometidos com a causa. Não como discurso, mas como projeto construído, hoje em fase de execução. 



É esse contraste que nos interessa colocar em discussão. Se um equipamento desse porte, com esses recursos, consegue gerar tanto valor articulado, o que isso revela sobre o que fazemos, ou deixamos de fazer, nas cidades maiores, onde o dinheiro e a estrutura técnica sobram, mas onde, com frequência, falta justamente aquilo que sustentou a Árvore do Amor: escuta do lugar, tempo dedicado à leitura da paisagem, e a presença de profissionais qualificados no centro das decisões. 


E aqui chegamos a um ponto que atravessa toda a nossa prática, o arquiteto da paisagem ainda ocupa um espaço marginal nas equipes técnicas dos órgãos públicos brasileiros. 


Somos convocados tarde, quando o desenho urbano já está decidido e resta "verdejar" o que sobrou, ou simplesmente não somos chamados. Isso tem um custo alto, cada vez mais visível diante das incertezas que o presente nos impõe. As mudanças climáticas, o adensamento urbano desordenado, a perda de identidade dos espaços públicos. Nenhum desses problemas se resolve com uma disciplina isolada. Eles pedem projetos que integrem engenharia, ecologia, história e antropologia ao mesmo tempo. É por isso que a formação do arquiteto da paisagem é multidisciplinar, conhecemos um pouco de cada uma dessas áreas, não a fundo de todas elas. Essa visão ampla é o que o torna um mediador, capaz de coordenar engenheiros, ecólogos, historiadores e antropólogos em torno de uma mesma obra. O que falta, na maior parte das vezes, não é competência técnica, mas justamente esse lugar de coordenação, ocupado cedo o suficiente para decidir, e não só para dar o acabamento. 


A Árvore do Amor é, para nós, prova concreta disso. Uma iniciativa pensada para gerar um equipamento de lazer qualificado, não só para quem mora em Maxaranguape, mas para todo o Rio Grande do Norte, e que, ao mesmo tempo, se propõe como motor de um turismo que nasce de dentro da comunidade, não sobre ela. É um projeto que aposta que cuidar bem de um lugar pequeno pode ser mais transformador do que investir grande em um lugar mal lido. 


Ainda estamos em obra. A validação definitiva — aquela que só o uso cotidiano, os corpos que vão habitar o espaço, as histórias que se acumulam ali, podem dar — ainda está por vir. Mas já temos sinais importantes de que esse caminho faz sentido além da nossa própria convicção. O projeto recebeu menção honrosa no Prêmio Roberto Burle Marx, promovido pela Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas, uma das principais distinções nacionais dedicadas à arquitetura da paisagem, e foi selecionado para integrar a edição 2026 do UIA Guidebook for the 2030 Agenda, publicação da União Internacional dos Arquitetos lançada em Barcelona, que reúne 68 iniciativas de diferentes países alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. 


Não trazemos esses reconhecimentos como ponto final, mas como convite para que olhemos com mais atenção e respeito técnico aos projetos de pequena escala, aos territórios fora do eixo das grandes capitais, e ao papel que arquitetos da paisagem podem (e devem) ocupar na construção de cidades mais justas, verdes e preparadas para o que vem pela frente. 


Thiago Frizon é Arquiteto Paisagista, Mestrando em Arquitetura, Projeto e Meio Ambiente (PPAPMA; UFRN) e com Especialização em Design e Arquitetura de Espaços Efêmeros (Pós DAEE; UNIESP)


Fernanda Lorena Rabelo de Oliveira é Arquiteta Paisagista, Mestra em Arquitetura, Projeto e Meio Ambiente (PPAPMA; UFRN) e com Especialização em Design e Arquitetura de Espaços Efêmeros (Pós DAEE; UNIESP) e Pós-Graduanda em Arquitetura da Paisagem (PUC Minas) .

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